A Fé em busca da unidade
O divisionismo protestante incomoda. Quais as origens deste fenômeno? Será que Lutero errou em ter colocado a Bíblia na mão do povo? A igreja perdeu a unidade por isso? E as divisões do cristianismo anteriores às reformas religiosas do século XVI? Quais as consequências destas divisões? Será que o quadro de diversidade e desunião que assistimos no Brasil cristão, em geral, e protestante, em particular, foi causado por eventos tão anteriores? Qual é o “fim” da divisão?
Em 1 Coríntios 12,18-20; 25-26, o apóstolo Paulo usa a analogia do corpo humano com o propósito de ensinar sobre o uso dos dons espirituais e acerca da unidade na diversidade. A unidade orgânica da igreja é formada pelo Espírito a partir dos muitos e diferentes membros. A partir desta unidade e na dependência mútua, a comunidade de fé vive em harmonia e pode cuidar-se mutuamente, convivendo como as diferenças e superando os conflitos.
Os evangélicos no Brasil receberam historicamente diversas influências. Puritanismo, salvacionismo, “conversionismo”, fundamentalismo, pietismo. Alguns elementos marcantes podem expressar a fé evangélica: 1) salvação pela graça por meio da fé; 2) autoridade das Escrituras; 3) sacerdócio universal; 4) separação entre a Igreja e o Estado; 5) liberdade de consciência. Influências e marcas, um mosaico de cores variadas. Cada igreja e comunidade local interpretando e reinventando estas características com todos os sabores locais disponíveis.
Como alcançar a unidade em meio à diversidade e ainda manter firme a identidade? A fé que busca a unidade traz consigo algumas características que passaremos a apresentar, sinteticamente:
I - A fé que zela. Em meio à diversidade é necessário cultivar a piedade pessoal, zelar pela sã doutrina bíblica e fazer boas obras. Entendendo sempre que o mistério da fé não é extático nem estático. Deus se revela caminhada da fé. E neste caminho o conhecimento comunitário enriquecerá a experiência pessoal. A busca individual deverá desaguar no mergulho de fé na vida do povo de Deus, em oração e ação, conhecendo o que crê e crendo para conhecer. Crer fazendo viva a fé e fazer para que a fé seja viva! Esta será a porta de entrada para o serviço em comunhão.
II - A fé que pensa. Diante da riqueza que é a relação entre a experiência pessoal e a vivência comunitária, a busca do equilíbrio é fundamental. “Crer é também pensar”, como diz John Stott. A fé não dispensa a mente. O nosso zelo deve ser dirigido pelo conhecimento enquanto o conhecimento deve ser inflamado pela fé. Não podemos nos entregar às experiências pessoais e comunitárias sem reflexão. Nem devemos agir como fanáticos ou paralisar a ação para pensar. Ação e pensamento caminham juntos. Quando isso for uma realidade na vida da igreja no Brasil, evitaremos o preconceito que nos isola e anestesia.
III - A fé que une. Unidade diferencia-se absolutamente de uniformidade. É indesejável uma igreja brasileira uniforme, sem o colorido e a alegria da diferença. A união considera o outro, respeita e valoriza. Unidade não é igualdade, é união na diversidade. Por isso devemos considerar a diversidade. Porém, é necessária a busca zelosa e refletida da identidade.
A fé em busca da unidade, é zelosa, reflexiva e unida. Mas, para a concretização deste sonho alguns expedientes são essenciais. Uma oportunidade rica e frutífera é a vivência acadêmica e comunitária compartilhada. Dentro de cada grupo e entre todos eles deverá caber sempre o espaço para o debate, o confronto saudável. Além disso, a troca da prática pastoral, das experiências de intervenção social e política. Intercambiar a vida de cada igreja, a começar pelos seus líderes em eventos próprios, regionais e nacionais. As igrejas deverão participar de momentos nos quais serão expostas aos resultados das mudanças experimentadas pelos seus líderes. E, na verdade, todos serão liderança quando tocados pelo mover do Espírito, pois pastores e teólogos se renderão à espontaneidade e fervor do povo unido.